sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

INDICADOS AO OSCAR REFLETEM MUNDO DO TRABALHO

Super interessante!

Por Myrna Silveira Brandão

Entre os vários títulos indicados ao cobiçado prêmio do Oscar no próximo dia 27, pelo menos três tem conexão e íntima relação com o mundo corporativo: Lixo Extraordinário, da inglesa Lucy Walker e os brasileiros João Jardim e Karen Harley; Trabalho Interno (Inside Job), de Charles Ferguson; e A Rede Social, de David Fincher.

Lixo Extraordinário que aborda inúmeros aspectos da área de gestão como sustentabilidade, preservação ambiental, auto-estima, diversidade, estratégia, liderança, superação, significado do trabalho e desequilíbrios que caracterizam a vida em todos os seus segmentos – é tema do Cine Fórum no Congresso RH RIO, que acontece nos dias 10 e 11 de maio próximo.

O doc. acompanha o caminho percorrido pelo lixo reciclado no Jardim Gramacho, maior aterro sanitário da América Latina em Duque de Caxias (RJ), e sua transformação em arte pelo artista plástico Vik Muniz, que fotografou os catadores e, após a revelação das fotos, eles mesmos reconstruíram suas imagens com o lixo que catam

Um dos retratados, Sebastião Santos, Presidente da Acamjg (Associação de Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho), foi fotografado tendo como referência um quadro com a figura de Marat assassinado, que foi vendido num leilão em Londres e cuja renda foi revertida para a Acamig.

A realização do filme – pela produtora brasileira O2 e a inglesa Almega Project – foi também a oportunidade de constatar a dignidade, o orgulho e a consciência da importância do trabalho que fazem.

O filme já é detentor de prêmios importantes como os de audiência nos Festivais de Sundance e Berlim e também o da Anistia Internacional, por entender que Lixo Extraordinário desafia preconceitos e idéias pré-concebidas sobre pessoas que vivem nos extremos da sociedade e abre o coração dos espectadores para a possibilidade de uma transformação através da coragem e da criatividade.

Um novo olhar sobre a crise

Decorridos quase dois anos da crise econômica de 2008, que colocou o mundo em estado de alerta, parece que não havia mais nada a dizer sobre seus reflexos, causas e conseqüências. Trabalho Interno, o outro concorrente ao Oscar prova, no entanto, que tudo que foi dito até agora, está longe de esgotar o assunto.

O documentário repete o sucesso do filme de estréia do diretor, que embora tardiamente com 55 anos, começou bem sua carreira no cinema. No end in sight, que ele realizou em 2007, ganhou o prêmio especial do júri no Sundance e foi indicado ao Oscar de melhor documentário no ano seguinte.

Narrado pelo ator Matt Damon, Trabalho Interno é o primeiro filme que expõe duros fatos por trás da crise econômica, resultando na depressão econômica mundial, que levou milhões de pessoas à perda do emprego, casa, perspectivas, economias e sonhos.

Através de entrevistas com os principais intervenientes financeiros, economistas experientes, políticos, intelectuais professores universitários e jornalistas, o filme coloca as coisas em termos que são esclarecedores e, por isso mesmo, assustadores.

Dentro do estilo inusitado que imprimiu em seu primeiro trabalho e apoiado em fatos e números, muito mais do que em exageros e frases panfletárias, o novo doc de Ferguson revela as relações que corromperam a política, as autoridades e até o mundo universitário.

Dentro de uma perspectiva histórica que retorna à Grande Depressão de 29, Trabalho Interno é um documentário forte na medida em que enfatiza a forma como o desordenado crescimento financeiro, a sua não regulação e, mais ainda, a sua aguda desregulamentação desde o governo Reagan, seguiam seu rumo enquanto os que podiam fazer algo preferiram jogar as coisas para baixo do tapete.

Ferguson tem quatro livros publicados, entre eles o que deu origem a No end in sight, um olhar acusador e com novos ângulos sobre a invasão do Iraque.

Trazer à tona um assunto até um pouco desgastado e com fatos reveladores narrados por personagens chaves, é justamente um dos pontos altos de Trabalho Interno. Acrescido do mérito de poder ser compreendido e analisado por qualquer pessoa, incluindo aqueles que não dominam o jargão econômico.

Ferguson entrevistou, dentre outros, Lee Hsien Loong – primeiro ministro de Singapura; Christine Lagarde, Ministra das Finanças da França; Nouriel Roubini, professor de economia da NYU; Martin Feldstein, professor de economia de Harvard e ex-assessor de Ronald Reagan e George Bush; Jonathan Alpert – psicanalista que atendia os executivos; e Charles Morris, autor do livro The Trillion Dollar Meltdown: Easy Money, High Rollers and the Great Credit Crash.

Em última análise, o doc. traz assuntos presentes do dia a dia de nossas vidas profissional e pessoal, com muitos elementos que levam à reflexão e ao debate.

O homem de bilhões de dólares

A Rede Social, por sua vez, uma história que envolve sucesso, dólares e traição, tem início no outono de 2003, quando o jovem Mark Zuckerberg, então aluno de Harvard, coloca em prática uma idéia quase acidental, que culmina com a fundação do Facebook, e o torna bilionário. Mas para esse empreendedor de apenas 27 anos, a fortuna veio acompanhada de complicações pessoais e legais.

Além dele, o filme apresenta outros personagens que tiveram papel fundamental na criação do Facebook, entre eles o carioca Eduardo Saverin, contemporâneo de Zuckerberg em Harvard. Saverin, que teria sido prejudicado quando o negócio começou a dar certo, ganhou na Justiça o direito de constar entre os fundadores do Facebook.

Essa história se torna mais fantástica com a constatação da progressiva gama de utilização das redes, cujo potencial é ainda difícil de imaginar.

O Facebook – assim como o Orkut, Twitter, Linkedln, My Space e outras – é uma fonte inesgotável de informação na divulgação de perfis, amigos, predileção, hábitos de consumo e outros itens que resultam num tipo de marketing social refinado e numa forma rápida de atingir potenciais consumidores. Sem falar na redução do investimento em pesquisa e em estruturas físicas e na minimização de barreiras geográficas e culturais.

Em qualquer análise ou pontos de vista, um fato é incontestável: as redes sociais impactaram de forma radical e irreversível a mídia, a comunicação nas empresas e a relação das marcas com seus consumidores.

Por último, embora o filme trate de um assunto que pode ser considerado a última palavra em termos de tema, aborda aspectos conhecidos desde a antiguidade – lealdade, amizade, poder dinheiro, inveja, status social, ciúme. Como lembrou o roteirista do filme Aaron Sorkin, é uma história que poderia ter sido escrita, se estivessem vivos, por Ésquilo ou Shakespeare.

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