Super interessante!
Por Myrna Silveira Brandão
Entre os vários títulos indicados ao cobiçado prêmio do Oscar no próximo dia 27, pelo menos três tem conexão e íntima relação com o mundo corporativo: Lixo Extraordinário, da inglesa Lucy Walker e os brasileiros João Jardim e Karen Harley; Trabalho Interno (Inside Job), de Charles Ferguson; e A Rede Social, de David Fincher.
Lixo Extraordinário – que aborda inúmeros aspectos da área de gestão como sustentabilidade, preservação ambiental, auto-estima, diversidade, estratégia, liderança, superação, significado do trabalho e desequilíbrios que caracterizam a vida em todos os seus segmentos – é tema do Cine Fórum no Congresso RH RIO, que acontece nos dias 10 e 11 de maio próximo.
O doc. acompanha o caminho percorrido pelo lixo reciclado no Jardim Gramacho, maior aterro sanitário da América Latina em Duque de Caxias (RJ), e sua transformação em arte pelo artista plástico Vik Muniz, que fotografou os catadores e, após a revelação das fotos, eles mesmos reconstruíram suas imagens com o lixo que catam
Um dos retratados, Sebastião Santos, Presidente da Acamjg (Associação de Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho), foi fotografado tendo como referência um quadro com a figura de Marat assassinado, que foi vendido num leilão em Londres e cuja renda foi revertida para a Acamig.
A realização do filme – pela produtora brasileira O2 e a inglesa Almega Project – foi também a oportunidade de constatar a dignidade, o orgulho e a consciência da importância do trabalho que fazem.
O filme já é detentor de prêmios importantes como os de audiência nos Festivais de Sundance e Berlim e também o da Anistia Internacional, por entender que Lixo Extraordinário desafia preconceitos e idéias pré-concebidas sobre pessoas que vivem nos extremos da sociedade e abre o coração dos espectadores para a possibilidade de uma transformação através da coragem e da criatividade.
Um novo olhar sobre a crise
Decorridos quase dois anos da crise econômica de 2008, que colocou o mundo em estado de alerta, parece que não havia mais nada a dizer sobre seus reflexos, causas e conseqüências. Trabalho Interno, o outro concorrente ao Oscar prova, no entanto, que tudo que foi dito até agora, está longe de esgotar o assunto.
O documentário repete o sucesso do filme de estréia do diretor, que embora tardiamente com 55 anos, começou bem sua carreira no cinema. No end in sight, que ele realizou em 2007, ganhou o prêmio especial do júri no Sundance e foi indicado ao Oscar de melhor documentário no ano seguinte.
Narrado pelo ator Matt Damon, Trabalho Interno é o primeiro filme que expõe duros fatos por trás da crise econômica, resultando na depressão econômica mundial, que levou milhões de pessoas à perda do emprego, casa, perspectivas, economias e sonhos.
Através de entrevistas com os principais intervenientes financeiros, economistas experientes, políticos, intelectuais professores universitários e jornalistas, o filme coloca as coisas em termos que são esclarecedores e, por isso mesmo, assustadores.
Dentro do estilo inusitado que imprimiu em seu primeiro trabalho e apoiado em fatos e números, muito mais do que em exageros e frases panfletárias, o novo doc de Ferguson revela as relações que corromperam a política, as autoridades e até o mundo universitário.
Dentro de uma perspectiva histórica que retorna à Grande Depressão de 29, Trabalho Interno é um documentário forte na medida em que enfatiza a forma como o desordenado crescimento financeiro, a sua não regulação e, mais ainda, a sua aguda desregulamentação desde o governo Reagan, seguiam seu rumo enquanto os que podiam fazer algo preferiram jogar as coisas para baixo do tapete.
Ferguson tem quatro livros publicados, entre eles o que deu origem a No end in sight, um olhar acusador e com novos ângulos sobre a invasão do Iraque.
Trazer à tona um assunto até um pouco desgastado e com fatos reveladores narrados por personagens chaves, é justamente um dos pontos altos de Trabalho Interno. Acrescido do mérito de poder ser compreendido e analisado por qualquer pessoa, incluindo aqueles que não dominam o jargão econômico.
Ferguson entrevistou, dentre outros, Lee Hsien Loong – primeiro ministro de Singapura; Christine Lagarde, Ministra das Finanças da França; Nouriel Roubini, professor de economia da NYU; Martin Feldstein, professor de economia de Harvard e ex-assessor de Ronald Reagan e George Bush; Jonathan Alpert – psicanalista que atendia os executivos; e Charles Morris, autor do livro The Trillion Dollar Meltdown: Easy Money, High Rollers and the Great Credit Crash.
Em última análise, o doc. traz assuntos presentes do dia a dia de nossas vidas profissional e pessoal, com muitos elementos que levam à reflexão e ao debate.
O homem de bilhões de dólares
A Rede Social, por sua vez, uma história que envolve sucesso, dólares e traição, tem início no outono de 2003, quando o jovem Mark Zuckerberg, então aluno de Harvard, coloca em prática uma idéia quase acidental, que culmina com a fundação do Facebook, e o torna bilionário. Mas para esse empreendedor de apenas 27 anos, a fortuna veio acompanhada de complicações pessoais e legais.
Além dele, o filme apresenta outros personagens que tiveram papel fundamental na criação do Facebook, entre eles o carioca Eduardo Saverin, contemporâneo de Zuckerberg em Harvard. Saverin, que teria sido prejudicado quando o negócio começou a dar certo, ganhou na Justiça o direito de constar entre os fundadores do Facebook.
Essa história se torna mais fantástica com a constatação da progressiva gama de utilização das redes, cujo potencial é ainda difícil de imaginar.
O Facebook – assim como o Orkut, Twitter, Linkedln, My Space e outras – é uma fonte inesgotável de informação na divulgação de perfis, amigos, predileção, hábitos de consumo e outros itens que resultam num tipo de marketing social refinado e numa forma rápida de atingir potenciais consumidores. Sem falar na redução do investimento em pesquisa e em estruturas físicas e na minimização de barreiras geográficas e culturais.
Em qualquer análise ou pontos de vista, um fato é incontestável: as redes sociais impactaram de forma radical e irreversível a mídia, a comunicação nas empresas e a relação das marcas com seus consumidores.
Por último, embora o filme trate de um assunto que pode ser considerado a última palavra em termos de tema, aborda aspectos conhecidos desde a antiguidade – lealdade, amizade, poder dinheiro, inveja, status social, ciúme. Como lembrou o roteirista do filme Aaron Sorkin, é uma história que poderia ter sido escrita, se estivessem vivos, por Ésquilo ou Shakespeare.
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